terça-feira, 27 de março de 2007

Carlos

Magda caminhava angustiada, não era a primeira vez que a chamavam ao colégio de seu filho. Ela fazia idéia... não, ela tinha certeza do que era. "Por que Carlos? Meu pobre filho..." Qualquer que seja o motivo, ela não o via. Carlos... como ele era especial para ela. O filho lindo... como ela poderia imaginar que ocorreria isso com ele? Todas as outras crianças normais... mas Carlos...

Deteve as lágrimas. Entrou no colégio e tomou a direção da secretaria. Poucas frases depois e ela já estava esperando pela diretora. Angústia. Medo. Não era justo... o seu filho... seu lindo filhinho. Apertava as mãos... tinha raiva... mas não devia demonstrar. A diretora entra.

- Boa tarde... - disse a diretora - desculpe faze-la esperar. Desejas uma água ou um café?
- Não obrigada. O que aconteceu?
- Seu filho... continua causando problemas e sinto ter de dar uma suspensão à ele...
- Suspensão? Mas... ó Deus, Carlos...
- Diga-me Magda, ele não demosntra nada em casa?
- Sim, mas já estou tratando ele com médicos renomados, estou fazendo tudo que está ao meu alcance, sempre falo com ele...
- Ele tem contagiado as outras crinças! Os pais estão alarmados, exigem que seu filho seja expulso e eu não quero tomar essa decisão, mas se ele continuar a falar em sonhos com as outras crianças...
- Eu sei... sempre digo para ele esquecer essa coisa de sonhos.
- O que os médicos dizem?
- Eles não sabem dizer porque meu filho sonha... dizem ser um caso muito raro.
- Entendo. Desejo que seu filho melhore logo, pare de sonhar e possa ter uma vida normal com as outras pessoas.
- É o que eu mais quero Senhora Weiss.
- Eu sinto muito... mas você sabe como é difícil para mim. Se Eles ficarem sabendo da persistência de Carlos...
- Nem me diga uma coisa dessas... Farei de tudo para que meu filho não pertube Eles...
- Certo. É melhor levar seu filho para casa. Ele está na sala ao lado. Tenha uma boa tarde.
- Boa tarde e obrigada.

Magda entra na sala ao lado e vê Carlos sentadinho lendo um gibi. Lágrimas vieram aos seu olhos. Seu filho querido... parecia normal, olhando assim, ninguém poderia dizer que ele sonha. Secou as lágrimas com os dedos e chamou o filho que lhe recebeu com alegria. De mãos dadas foram saindo, Magda sem falar nada, segurando as lágrimas. Seu filho iria se curar, iria deixar de sonhar e se transformar em uma pessoa normal. Ela fará de tudo para que isso aconteça... Carlos será muito feliz... muito feliz...

segunda-feira, 19 de março de 2007

Vinho tinto e solidão

Sozinho existo, por existir..... por insistir....
Toda a noite, toda a vida.... solidão....

Carrego comigo as marcas.... de amores não vividos
De suspiros desesperados de paixão....
Em meio as sombras busco refúgio,
Das dores atrozes em meu coração

O que me resta? Um sonho?
Uma vontade ardente de ser amado?
Ou apenas uma vergonha....
Vergonha de ser tão errado....

O vento traz consigo o frio
Que penetra, corta minha alma
Envolto em minha depressão
Eu busco.... com muita fé

O amor de minha amada....

Ecos

"O homem é menos ele mesmo quando fala na sua própria pessoa. Dê-lhe uma máscara e ele dirá a verdade" Oscar Wilde (1854 - 1900 * escritor irlandês)

"O presente não existe; é um ponto entre a ilusão e a saudade" Lorenç Villalonga (1887 - 1980 * escritor espanhol)

"É comum que novas verdades comecem como heresias e terminem como superstições" Thomas Henry Huxley (1825 - 1895 * naturalista inglês)

"A terra produz o suficiente para satisfazer as necessidades de todos; porém, não a cobiça de todos" Mahatma Gandhi (líder espiritual indiano)

(...)

Gostaria de ter um pouco mais de certeza sobre as coisas... o tempo tem passado tão rápido ultimamente, que nem mais percebo minha vida... estudos e pensamentos se cruzam de forma tão precisa, que não deixam muito espaço para algo diferente e excitante. Dói saber que meu espírito está perdido... não saber quem sou... aonde vou... para que vou... não sei... talvez isso tudo não seja nada... apenas algumas letras jogadas nessa folha morta... em busca de refugio, uma fuga... sem saber do que fujo... um escrever por escrever... uma tentativa de não sentir-se só... de não sentir-se morto...

Breve momento de novidade antiga

Dor de cabeça... Silvio sabia o que era, mas não tinha ânimo para solucionar o problema. Respirou fundo, tomou mais um gole de café... olhou rapidamente a seção política do jornal... mesma trama. Habituava-se a esse destino engessado e tedioso do mundo moderno. Diploma, emprego, carro, mulher, casamento, apartamento, filhos, aposentadoria.... morte. Poderia haver uma pequena modulação nisso tudo... um divórcio... mas a base é sempre a mesma.

Levantou-se, terminou o café... deixou as moedas na mesa... mãos no bolso, cara fechada, passos vagos e a certeza que amanhã tudo será igual... igual...

domingo, 18 de março de 2007

(...)

O início dos tempos, talvez seja uma forma estranha de pensar no fim dos tempos, quando tudo pode ser aquilo que não foi e vice-versa. Caso raro de uma situação et eternum que vacila nas contradições do ego, da fé e da razão. Hunf... pensar é algo trágico e prazeroso ao mesmo tempo! Talvez eu precise de mais café... mais café...

Reflexus

"Saber dizer algo,
saber ouvir algo,
desconcentrar o inconsciente
banir o ego estridente
cair em si...
sem mais..."

sábado, 17 de março de 2007

Já passam das duas.

“Já passam das duas, e ela ainda não abriu a porta... está ficando frio e ela ainda não abriu a porta. Será que ela não me ouviu chamar? Claro que ouviu... e esse frio... se ao menos tudo parasse de girar... Ela ainda não abriu a porta. Cansou de ajuntar-me pelas esquinas, cansou de ter problemas... está ficando frio, e ela ainda não abriu a porta... Por que machuco alguém que amo tanto? Por que sou um verme? Se ao menos eu pudesse voltar ao bar, mas minhas pernas... Por que diabos pensar em bar agora? Não basta o que você já fez a ela? Está ficando frio... e ela ainda não abriu a porta. Se eu pudesse sentir o calor dela, o cheiro dela... mas eu sou um verme maldito... quanto já fiz ela chorar. Ela deve estar chorando agora, maldito... veja só o que você faz a pessoa que você ama! Eu não passo de um verme... como posso querer o amor de alguém? Brrr, tão frio... e as estrelas giram... e essa calçada áspera... o pó... e ela ainda não abriu a porta.

Tudo tão quieto, será que estou vivo? É claro que estou vivo, não queira fugir agora seu maldito... está vivo o bastante para perceber que só machuca ela, para perceber que joga tudo fora... por causa da bebida e dos rabos de saia... tão frio... tão frio... tão quieto... e eu aqui na calçada... junto à sujeira, sim este é o meu lugar... no chão, rastejando como um verme, nem assim para pagar tudo que fiz à ela... ò ela é tão bonita, tão especial... por que ela não abre a porta? Ao menos dessa vez... pare, não chore... não chore... tarde demais, minhas lágrimas já congelam em meu rosto... tão frio... ela ainda não abriu a porta, luzes apagadas... tudo tão quieto... ei, acho que tenho um cigarro, isso vai me esquentar um pouco... sim... cof cof... a tosse é um sinal que ainda estou vivo... aliás, você disse à ela que pararia de fumar... mas está tão frio... ò Deus, sou um fracasso!

Tudo gira... apenas consigo ver a luz dos carros que passam e nada mais... como posso ficar assim? Tão bêbado que não consigo mover-me... ao menos posso acender outro cigarro... gostaria de olhar para a lua... mas tudo gira... não consigo ver nada, só sei que ela ainda não abriu a porta... minha doce menina... a única coisa que vale a pena nesse mundo decadente... se soubesse o quanto lhe amo... mas sou um fracasso... minha alma é suja... por que me deste a honra de teus braços? Por que perdeste tanto tempo comigo? Eu não mereço nada... ó Deus, destruí todos os teus sonhos... consumi teu riso como este cigarro que morre em minha boca....

Todas as vezes que me defendeste perante tua família... e eu aqui.... nesta calçada, bêbado, com o perfume barato de cada vadia que pude encontrar... tão frio... tão frio e tu não abres a porta, não aparece com teu sorriso e me diz que está tudo bem... sou um fracasso, um verme maldito... fuja de mim... não me deixe destruir sua vida assim como destruí a minha.... tão frio... este é o meu lugar. Esta calçada áspera e suja é o que mereço... luzes apagadas... você não abriu a porta... deixe-me acender outro cigarro... tudo gira... não consigo mover-me... tudo gira... luzes apagadas... porta fechada, carros que passam, tão frio... lembra de quando você conheceu ela? Era para tudo ser diferente... tudo que disse para ela... ó menina... eu realmente te amo... eu realmente te amo! Mas minha alma é tão suja... cof cof... cof cof...cof cof...

Não consigo para de tremer... está tão frio... meus cigarros acabaram... cof cof cof cof cof... tudo gira... está tão frio... e ela ainda não abriu a porta...”

Reflexus

"Silêncio que incomoda,
suspiros que intercalam,
o tempo apenas reflete
e minha alma adormece

É apenas banal o momento,
caminhar durante a noite,
abrir os olhos ao amanhecer,
tomar um café...
deixar o tempo esquecer..."

Quando objetivos se cruzam em via rápida

Passou a mão na barba. Olhou para a paisagem que conhecia como a palma de sua mão. Trinta anos... tão rápidos. O outro homem continuava dirigindo com seu cigarro inclinado na boca, quase caindo... baforando de quando em quando. Enfim, resgatou o cigarro com os dedos e olhou para o passageiro, falando:
- Deixou tudo pronto?
- Hã - um pouco abrsorvido em si mesmo - sim, deixei sim...
- Que bom... espero que não tenha esquecido nada... geralemente as pessoas esquecem...
- Dobre à esquerda aqui...
O carro sacode um pouco ao entrar na estrada de terra. O resto da viagem foi quieta, nenhum dos homens falou. Imperava uma sensação de tranquilidade. O sol estava se pondo dando ao céu um tom avermelhado. O gado começava a se recolher. O canto dos passáros como uma despedida.
Depois de cerca de meia-hora, enfim chegaram. O passageio é o primeiro a descer... caminha alguns passos, abre os braços e respira fundo. O motorista apenas acende mais um cigarro enquanto pega as coisas. O passageiro diz:
- Existem coisas inimagináveis escondidas nisso tudo. É humilhante ser um humano e não ter tempo de compreender.
- Talvez nós não devamos compreender... - respondeu o motorista.
- Tens filhos?
- Sim, dois meninos.
- Passa tempo com eles?
- Quando não estou trabalhando, sim...
- Eu amo meus filhos... mas talvez nunca tenha demonstrado isso...
- Acredite, nós nunca demonstramos o suficiente...
Sentaram-se, abriram o vinho e começaram a tomar lentamente em silêncio. Olhavam a paisagem em volta, como que num ato místico. Não falaram nada. Terminaram o vinho.
- Está pronto? - perguntou o motorista.
- Sim - respirou fundo - estou sim.
O motorista olhou mais uma vez para o homem à sua frente. Sacou a pistola, rosqueou o silenciador, destravou e atirou. O tiro atingiu bem no meio das testa, como sempre. Levantou-se, acendeu um cigarro, olhou a paisagem por uns instantes e entrou no carro... era hora de voltar para casa.